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Apesar do racismo no Brasil, por que pessoas brancas ainda não percebem sua posição de privilégio social?

Apesar do racismo no Brasil, por que pessoas brancas ainda não percebem sua posição de privilégio social?

Por: Adelmo Filho

24 de janeiro de 2026

Periodicamente acompanhamos diversos movimentos em defesa da valorização da vida das pessoas negras. O movimento #BlackLivesMatter (Vidas Negras Importam) é um dos maiores símbolos dessas mobilizações. Criado em 2013 por três mulheres negras, ele ressalta a importância de combater pensamentos e práticas racistas e de construir espaços seguros para pessoas negras, especialmente no que diz respeito à atuação do Estado e da Polícia. Em 2020, o movimento ganhou novamente grande visibilidade após a onda de protestos motivada pelo assassinato de George Floyd, morto depois que um policial de Minneapolis ajoelhou-se sobre seu pescoço por mais de oito minutos. No Brasil, um episódio semelhante ocorreu no mesmo período, quando uma mulher negra de 51 anos, trabalhadora e residente no estado de São Paulo, foi agredida por um policial, recebeu socos, teve a tíbia quebrada e sofreu diversos desmaios após ter o pescoço pisoteado. O caso não foi isolado. Ainda naquele ano, uma mulher negra grávida de cinco meses teve o abdômen pisoteado por outro policial e foi violentamente agredida no rosto. Além das agressões físicas, também é possível observar episódios de violência verbal direcionados a pessoas negras por pessoas brancas. Um exemplo é o caso do motoboy Matheus Pires, de 19 anos, que foi insultado por um morador de um condomínio em São Paulo, que dizia: “você tem inveja disso aqui também”, apontando para a própria pele, além de chamá-lo de semianalfabeto e proferir outras ofensas. Outro caso amplamente divulgado foi o de uma juíza que, ao proferir sentença contra um homem negro, utilizou como justificativa o fato de ele ser condenado “em razão da sua raça”. Diante desses acontecimentos, é possível questionar: o que há em comum entre esses discursos e ações violentas? O que torna o corpo negro alvo de violências físicas e verbais? Por que, no Brasil, jovens negros são os principais alvos da violência policial, morrendo um a cada 23 minutos? Uma das explicações está na compreensão do que é o racismo e de como a estrutura racial é organizada para privilegiar pessoas brancas e subalternizar pessoas negras. O racismo é um pensamento ideológico que se baseia na crença de que uma raça ou grupo étnico é superior a outro, estabelecendo hierarquias nas quais a branquitude ocupa o topo. Como consequência, a população negra — a mais afetada no Brasil — enfrenta inúmeras desvantagens sociais, econômicas, políticas, institucionais, religiosas e culturais. Isso nos leva a uma questão central: se pessoas brancas vivem, de fato, uma condição de privilégio social, por que muitas delas não percebem essa posição? Podemos pensar em uma metáfora: peixes no mar, pássaros no céu ou formigas na terra não percebem o ambiente em que vivem, pois ele constitui seu habitat natural. De modo semelhante, a estrutura racial brasileira beneficia pessoas brancas de tal forma que o privilégio passa a ser compreendido como algo natural. Estar em vantagem ou acima de pessoas negras é visto como parte da ordem das coisas. Assim, muitas pessoas brancas não refletem criticamente sobre essa posição, não adotam posturas antirracistas e, em alguns casos, reproduzem práticas de anti-negritude, contribuindo para a manutenção de seus privilégios. A psicóloga e doutora Lia Vainer Schucman, em estudos sobre branquitude, entrevistou pessoas brancas, inclusive algumas em situação de rua. Entre os relatos, surgiram falas como: “eu posso entrar no shopping para usar o banheiro, meus colegas não”, “eu ganho mais dinheiro do que meus colegas, sem pedir” ou “acho que querem me tirar daqui, sabem que este não é o meu lugar”. Esses relatos evidenciam que, mesmo em situações extremas de vulnerabilidade social, o fenótipo branco ainda implica vantagens quando comparado ao de pessoas negras. Muitas pessoas brancas podem nunca ter refletido conscientemente sobre os benefícios associados à cor de sua pele. No entanto, diante da ampla circulação de informações nas mídias, torna-se cada vez mais difícil ignorar as formas pelas quais o corpo negro é sistematicamente prejudicado na sociedade brasileira. Algumas se isentam das lutas sociais por acreditarem que não são racistas, afinal, não defendem explicitamente a morte ou o encarceramento de pessoas negras, nem se identificam com grupos extremistas. Contudo, ao rir de piadas racistas, ignorar situações de discriminação, injúria ou violência racial, contribuem para a normalização do racismo. Essa omissão também sustenta sua reprodução, caracterizando uma prática racista, ainda que sem intenção declarada. Diante disso, pessoas brancas no Brasil precisam se fazer algumas perguntas: você gostaria de ser um jovem negro neste país? Ou uma mulher negra trabalhadora? Se a resposta for não, é necessário refletir sobre a própria posição de privilégio. O enfrentamento ao racismo não é uma responsabilidade exclusiva da população negra; trata-se de uma tarefa que deve ser assumida, sobretudo, por pessoas brancas. Como afirma a psicóloga norte-americana Beverly Daniel Tatum: “a quem muito é dado, muito é exigido”.
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