
Descansar é uma dívida histórica
Por: Adelmo Filho
26 de janeiro de 2026
Há pouco tempo, estava no Instagram passando pelos stories, como sempre faço nos intervalos do dia, entre os atendimentos terapêuticos e as reuniões. Em um desses momentos, vi uma mensagem que dizia: “descansar é uma dívida histórica”, e isso mexeu em algo que estava guardado por aqui há muito tempo.
Dias se passaram e essa frase continuou vindo à tona. Agora, escrevo sobre isso. Através das palavras, posso compartilhar o que sinto e o que penso, sempre relacionado ao lugar de onde eu falo — acima de tudo, racial — e, a partir disso, suas intersecções com cisgeneridade, classe, sexualidade, medidas corporais, deficiência e outras.
Corpos negros costumam se cobrar muito, sempre pensando: “devo ser melhor”, “devo provar que posso”, “preciso provar o meu valor”. Mas até que ponto provar que se pode — ou qual é o seu valor — depende exclusivamente de você? Pare de ler agora e reflita sobre isso. Se você for uma pessoa negra, pense em todas as vezes em que lutou por reconhecimento e, mesmo fazendo dez vezes melhor, o seu valor não chegava à metade quando comparado ao de pessoas não negras.
As pessoas negras no Brasil estão em situação de vulnerabilidade há séculos. Após a promulgação da Lei Áurea, corpos negros passaram a viver em situação de rua, sem acesso à educação, moradia, alimentação e a outras necessidades básicas. Enquanto isso, as pessoas brancas tinham moradia, alimentação, roupas, educação, dinheiro e conheciam o lugar que ocupavam socialmente.
Pessoas negras brasileiras lutam para conquistar um espaço de humanização, para se erguer diante de uma estrutura que tenta limitar cada passo possível. É como se houvesse “trajetórias planejadas” a partir de seus fenótipos raciais.
Uma simples frase me despertou reflexões profundas, a ponto de me fazer pensar sobre as minhas escolhas, inclusive a escolha de descansar. Fiz anos de graduação sem pausa, inúmeras formações, projetos de pesquisa, grupos de ensino, pesquisa e extensão. Cheguei a realizar três estágios enquanto escrevia o meu TCC, coordenava uma ONG, uma Liga Acadêmica de Relações Raciais e diversas outras atividades. Ainda assim, minha trajetória continuava sendo colocada em dúvida aos olhos dos outros, como se eu não fosse capaz, como se a minha presença fosse questionável.
De que adiantava me esforçar tanto se este sistema, acima de mim, desvalida o meu percurso? O racismo estrutural — e, especificamente, o racismo institucional — invalida os nossos conhecimentos, principalmente quando relacionados às questões raciais, como se as nossas produções não fossem ciência.
Decidi descansar. Tirar um tempo para pensar em mim, no meu corpo e na história que ele carrega. Lembro-me de que, no início da graduação, eu já trabalhava com produção científica, fazia parte de um grupo de pesquisa e realizava trabalhos alternativos para complementar a renda. Ainda assim, meus esforços eram constantemente questionados.
Por que cobram tanto das pessoas negras? Por que acreditam que pessoas negras não podem descansar? Eu quero poder dormir o dia inteiro sem cobranças, quero tirar férias prolongadas com amigos e família, sem incômodos.
Nos semestres finais, lembro do meu pai dizer: “Você sabe que o mestrado tenta depois, né? O importante agora é fazer um concurso ou procurar um emprego e ir trabalhar.” Assim, vamos de uma coisa a outra e, quando paramos para pensar, o tempo já passou. O racismo nos tira até a possibilidade de escolher com o que gostaríamos de trabalhar, porque sobreviver é urgente — como há pouco mais de 100 anos, quando nossos ancestrais lutavam por direitos básicos.
Crescemos ouvindo: “Você é negro, tem que fazer em dobro!”. E pensemos como isso se aplica para além da raça, considerando as diversas formas de opressão que atravessam os corpos. Se o tom de pele já nos faz questionar nossa capacidade, imagine adicionar gênero, agênero, classe social, sexualidade, medidas corporais ou deficiência. Tudo é redimensionado.
Precisamos descansar porque a sociedade não nos permite pausar. Pausar para pensar, sentir, tocar o nosso corpo, refletir sobre a nossa existência. O racismo não descansa, não tira férias, atinge a população negra o tempo inteiro. Por isso, tentar se afastar dele, ainda que por um tempo, é fundamental.
Certa vez, ouvi uma mulher negra, professora universitária, relatar que, mesmo com um longo currículo e anos à frente de uma disciplina, foi obrigada a dividir o conteúdo com um homem não negro, sem experiência na área. Os horários foram ajustados para atender à disponibilidade dele, sem que ela fosse comunicada. No fim, ela não conseguia mais chegar a tempo para ministrar a aula. “Não me estresso mais”, disse.
Por vezes, tentamos demais, mas o sistema não foi construído para ser justo conosco. Isso não significa deixar de nos preparar para sermos os melhores possíveis. Significa olhar para a nossa história, respeitar o nosso corpo e reconhecer os nossos limites. Cuide-se. O racismo adoece — e, muitas vezes, nem percebemos.
https://www.youtube.com/watch?v=opP7UkD0O9Y&feature=youtu.be
