
Bixas pretas periféricas: identidade e resistência
Por: Adelmo Filho
24 de janeiro de 2026
Falar sobre raça, saúde e sociedade abre brechas para discutir diversas questões, principalmente suas interseccionalidades, como gênero, classe, sexualidade, corporalidade, entre outras. Para falar sobre a realidade das bixas pretas no Brasil e sobre como esse grupo ocupa, historicamente, um lugar de vulnerabilidade, podemos observar alguns dados: a cada 16 horas, uma pessoa morre vítima de homofobia; a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado. Assim, os riscos relacionados à sexualidade e à raça são redimensionados quando associados a esse grupo.
Além das histórias de resistência e sobrevivência, existem outras narrativas: um novo olhar que as bixas pretas vêm construindo na sociedade, rompendo com comportamentos normativos. Trata-se de um avanço geracional que nos permite compreender melhor a multiplicidade que constitui a sociedade.
Para discutir bixas pretas periféricas, identidade e resistência, convidamos o psicólogo Leonardo Ribeiro para uma entrevista. Ao falar sobre sua trajetória, ele conta que ainda na graduação começou a se debruçar sobre estudos relacionados à raça, gênero e sexualidade, e que hoje possui publicações e entrevistas nessa temática. Antes mesmo de seus estudos, é importante destacar o lugar que ocupa e sua história com as bixas pretas. Leonardo é residente do bairro de Paripe, mas sua trajetória educacional foi construída fora desse território, em colégios religiosos e em uma universidade onde as pessoas eram majoritariamente brancas e heterossexuais. Esse contexto o fez questionar o sentido de estar em espaços com pessoas que não se pareciam com ele, levando-o, por vezes, a modificar seu comportamento para se ajustar a determinados grupos.
É possível perceber que, ao relatar sua trajetória, o psicólogo toca em uma realidade comum às minorias sociais: a necessidade de modificar comportamentos para não se sentir diferente, mas pertencente. Quantas pessoas LGBTQIA+ você conhece que não expressam ou não verbalizam sua sexualidade por medo de represálias da família, de pessoas próximas ou até de desconhecidos? Imagine viver uma vida na qual não se sente seguro ou confortável o suficiente para demonstrar quem realmente é.
A partir dessas vivências, Leonardo Ribeiro atribuiu um sentido à sua prática em psicologia, refletindo sobre o sofrimento psíquico da população negra e LGBTQIA+. Para ele, pensar as bixas pretas é pensar em identidade, pois esses sujeitos refletem estereótipos atribuídos ao homem negro: a hiperssexualização, a ideia de que não é capaz de sentir ou construir afetos e aquilo que é aceito dentro da normatividade. Por isso, afirma que “a bixa preta nega a negritude imposta e também nega a heteronormatividade; ela traça um novo caminho”, ressaltando ainda que “a sexualidade da bixa preta incomoda porque foge dos padrões sociais, por isso é um tabu”.
Quando me refiro às bixas pretas como representação de avanços geracionais, tomo como referência uma fala de Leonardo, na qual afirma que “é importante ter voz para fazer-se existir, e não apenas resistir”. Existir é ampliar o olhar para a diversidade, desmistificando os padrões religiosos e normativos que a sociedade brasileira carrega.
Diante dessas movimentações, é importante citar o Afrobapho, coletivo criado por Alan Costa, em 2015, na cidade de Salvador (BA). Seu início se deu como um grupo no Facebook, com a proposta de acolher corpos negros dissidentes de gênero e sexualidade, dialogando e visibilizando narrativas sobre raça, gênero e sexualidade. O Afrobapho surgiu em um período de intensos debates sobre identidades negras, empoderamento e estética, influenciando a construção de novos signos para os corpos das bixas pretas. Segundo Alan, esses corpos estavam “à mercê do riso alheio, como se nossa função fosse apenas o humor debochado, em que as pessoas mais riem da gente do que com a gente”. O coletivo surge para possibilitar maior autonomia a esses corpos e aos sentidos que produzem, sem viver à sombra da heteronormatividade.
“Nós lutamos e exigimos respeito e a naturalização de nossas existências.”
(Alan Costa)
O psicólogo Leonardo Ribeiro também alerta que essa identidade não possui um modelo padrão, pois existe uma grande diversidade dentro desse grupo. Há também bixas pretas intimidadas, que ainda não conseguem expressar sua força, mas que igualmente são atravessadas por violências diretas e indiretas.
Em relação aos espaços nos quais atuou e teve contato com esse público, Leonardo aponta questões relacionadas ao sofrimento psíquico. Racismo, homofobia e outras formas de opressão podem gerar transtornos e comportamentos como ansiedade, depressão, dificuldades em vivenciar a própria identidade, problemas para se expressar em público, distanciamento ou ausência de diálogo com a família, sensação de inferioridade, entre outros.
Para quem deseja se aprofundar na temática, indico a leitura do artigo Bixas pretas: subjetividades sobre-viventes, presente no livro Ciências Sociais Aplicadas II: Saberes Interconectados. No Linktree do autor é possível encontrar mais informações sobre o livro, formas de aquisição e outras indicações de leitura. O artigo contribui para a compreensão de como as construções sociais marcadas por raça, gênero e classe social podem produzir adoecimento nos sujeitos identificados como bixas pretas.

