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Preto, pardo, branco? Afinal, qual é o meu lugar?

Preto, pardo, branco? Afinal, qual é o meu lugar?

Por: Adelmo Filho

24 de janeiro de 2026

É comum observar manifestações nas redes sociais, em programas televisivos e até dúvidas entre pessoas próximas quando o assunto é a autodeclaração racial. Pessoas brancas e pessoas negras de pele retinta, em geral, conseguem identificar com mais facilidade o lugar que ocupam socialmente e demarcar sua cor ou raça. Entre esses polos — o branco e o negro retinto — estão as pessoas negras de pele mais clara, menos retintas, que muitas vezes vivenciam uma sensação de não pertencimento e de não lugar. “Escuro demais para ser branco, claro demais para ser negro” é uma frase frequentemente utilizada para descrever essa experiência. Inicialmente, é necessário compreender o que se entende por raça e autodeclaração, considerando seu contexto histórico e significado atual. Ao falarmos sobre raça — branca ou negra — não estamos atribuindo características biológicas. Há mais de um século, a ciência refutou a ideia de hierarquias raciais baseadas em aspectos biológicos. Ainda assim, milhões de pessoas foram escravizadas e mortas ao redor do mundo por serem consideradas pertencentes a “raças inferiores”. Ao analisar a historicidade do termo raça, é possível compreender as consequências deixadas na sociedade contemporânea. Um exemplo disso é a situação de vulnerabilidade social em que a população negra frequentemente se encontra, evidenciada por dados que apontam desigualdades em áreas como emprego, renda, educação, alimentação e moradia. Nesse sentido, o conceito de raça passou a ser utilizado pelas ciências sociais para explicar as relações sociais entre pessoas brancas e negras no Brasil. Atribuir comportamentos a um grupo racial com base na aparência — como associar automaticamente a negritude à periculosidade — é uma prática racista. A categoria raça, nesse contexto, é fundamental para a garantia de direitos e para a formulação de políticas públicas voltadas às minorias sociais. No que se refere à categoria negra, o IBGE estabelece a divisão entre pessoas pretas e pardas. Neste texto, opta-se por utilizar as expressões pessoas negras mais retintas e menos retintas, considerando que, assim como a pele branca, a pele negra apresenta múltiplos tons. Essa perspectiva evita o apagamento da identidade racial de diferentes sujeitos. No Brasil, o tom de pele não é o único marcador racial; características como tipo e textura do cabelo, formato do nariz, boca e olhos também são consideradas. Desde 1872, o Brasil utiliza classificações por cor da pele, sendo branca, preta e parda as categorias mais recorrentes. Em 1991, a categoria indígena foi incorporada. Historicamente, as categorias preta e parda eram atribuídas majoritariamente à população escravizada. Estudos apontam que pessoas negras de pele mais clara, durante o período escravocrata, tinham acesso a determinados privilégios relativos, como a casa dos senhores ou restos de alimentos, enquanto pessoas de pele mais escura eram relegadas às condições mais precárias, inclusive no trabalho, sendo destinadas às lavouras, enquanto outras exerciam funções domésticas. Essas diferenças produziram impactos duradouros nas hierarquias raciais. A estrutura social brasileira foi historicamente construída de forma a impactar a realidade das pessoas negras no presente e no futuro. Pessoas brancas sabem que são brancas, pois a sociedade constantemente reforça o lugar de privilégio e vantagem que ocupam. Já as pessoas negras, especialmente as de pele mais retinta, vivenciam o racismo de forma mais explícita e violenta ao longo de mais de 400 anos de história. Esse processo, muitas vezes de forma inconsciente, pode levar ao apagamento das vivências e identidades das pessoas negras menos retintas, produzindo nelas sentimentos de não pertencimento e não lugar. Trata-se de um resquício do sistema escravocrata que ainda estrutura nossas formas de pensar e agir. Um ponto fundamental a ser compreendido é que, no Brasil, ter pai, mãe ou avós negros não define, por si só, a identidade racial de uma pessoa. A identificação racial ocorre a partir dos fenótipos — isto é, da aparência — e não da origem genética. A discriminação racial incide sobre os traços visíveis, sendo a cor da pele o principal marcador, mas também o formato do nariz, dos olhos, da boca, a espessura dos lábios e o tipo de cabelo. Essa lógica difere do que ocorre nos Estados Unidos, onde predomina um modelo de classificação racial baseado na origem. Outro aspecto importante é o caráter territorial da raça. O Brasil é um país de dimensões continentais, e cada região possui contextos históricos e culturais específicos. Nas regiões Norte e Nordeste, onde há maior concentração de pessoas negras retintas, pessoas negras de pele mais clara podem ser frequentemente percebidas como não negras. Já em regiões como o Sul do país, com maior predominância de pessoas brancas, essas mesmas pessoas podem ser facilmente identificadas como negras devido às suas características fenotípicas. A sociedade precisa compreender que ser negro não corresponde a um único tom de pele. Existem múltiplas tonalidades e traços, e é necessário evitar o apagamento da negritude do outro. Isso não significa, contudo, que pessoas visivelmente brancas — em termos de pele e ausência de traços negros — possam se autodeclarar negras apenas com base em ascendência familiar ou identificação cultural, ancestral ou espiritual. Após essa reflexão, é possível compreender que: - No Brasil, raça não deve ser entendida em sentido biológico ou genético; - Atribuir valores ou comportamentos sociais a grupos raciais é racismo; - A identidade racial no Brasil é definida a partir dos fenótipos, e não da ascendência; - Ser negro não se resume ao tom de pele; - Quanto mais próximos dos traços associados à negritude — pele mais escura, cabelo mais crespo, nariz e lábios mais largos —, maiores são as chances de sofrer racismo; - A raça também é atravessada por fatores territoriais; - O movimento negro construiu lutas históricas pela unificação e reconhecimento racial, devendo-se fortalecer o pertencimento e evitar a exclusão; - Pessoas negras de pele clara também sofrem racismo, ainda que pessoas mais retintas estejam mais expostas às violências; - Pessoas negras de pele retinta precisam reconhecer a diversidade de tons da pele negra; - Coletivamente, é fundamental reconhecer e valorizar a pluralidade das identidades negras e as lutas históricas dos movimentos sociais.
half moon

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