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Quilombos de afeto: o dengo que toda mulher negra precisa ter

Quilombos de afeto: o dengo que toda mulher negra precisa ter

Por: Adelmo Filho

12 de janeiro de 2026

Um dos temas mais importantes para discutirmos é o afeto. Mas, afinal, o que é o afeto? Ele tem cor, gênero ou classe social? Sexualidade ou corporalidade? Para aprofundar essa reflexão, convidei a doutora em Sociologia Bruna Cristina Jaquetto Pereira, pesquisadora das trajetórias afetivo-sexuais de mulheres negras. Durante suas pesquisas sobre violência contra mulheres negras, Bruna percebeu que essa violência vai além das agressões físico-corporais. Um exemplo disso é a recusa de muitos homens em andar de mãos dadas com mulheres negras, o que também configura uma forma de violência simbólica e produz sofrimento psíquico. Essa constatação a levou a se aprofundar nos estudos sobre relações afetivo-sexuais, com foco no corpo da mulher negra. Pereira compreende o afeto como uma possibilidade de troca: algo que se estabelece nas relações e que é fundamental para a construção da imagem que temos de nós mesmas. No entanto, é possível perceber que características fenotípicas influenciam diretamente a forma como as pessoas são tratadas na sociedade e como passam a se perceber, de maneira positiva ou negativa. A seguir, um vídeo exemplifica situações comuns que ajudam a refletir sobre autoestima e sobre a construção dos afetos. [https://youtu.be/y83NLwF3AYg?si=1IysX7ipWGoFMqWe](link) A pesquisadora ressalta que o afeto é tão fundamental que impacta também a maneira como percebemos o mundo e as possibilidades que acreditamos ter ou até onde podemos ir. A partir disso, surge uma reconhecida reflexão: como meninas negras podem construir uma imagem positiva de si mesmas se, desde o período escolar, sofrem diversas violências? Seja por serem meninas negras, por seus cabelos, roupas ou acessórios. Como aprender a se amar? Como a sociedade pode reconhecer que mulheres negras são dignas de receber e trocar dengos e chamegos? Bruna destaca que isso “não é visto como um direito” e questiona: quando o afeto é negado, o que acontece? Como é possível reivindicá-lo? O que tem sido feito? As mulheres negras se encontram em um contexto em que o afeto e o amor lhes são sistematicamente negados. Ela reforça que não apenas mulheres negras sofrem violências afetivas — mulheres brancas também sofrem —, mas, no caso das mulheres negras, essas violências se somam às opressões de raça, classe e gênero. Em seus estudos, mulheres negras costumam aparecer como “espectadoras da vida afetiva de mulheres brancas”. Pereira aponta que mulheres brancas encontram mais parceiros afetivos do que mulheres negras, o que não garante relações saudáveis para nenhum dos grupos. Ainda assim, afirma que, “se mulheres negras pudessem experimentar essa realidade vivida por mulheres brancas, isso já representaria um avanço”, mesmo reconhecendo que ainda haveria machismo e violência, mas com menor sensação de desprezo e desumanização de seus corpos. Há também uma construção social sobre o corpo da mulher negra, especialmente quando descrito por homens brancos, como um corpo “outro”, colocado à margem. Essa visão produz sofrimento. Quando se trata das relações com homens negros, surge a necessidade de discutir a branquitude, seu impacto nas subjetividades e como ela influencia escolhas afetivas. Em alguns casos, mulheres brancas passam a ser vistas como uma forma de acesso ao mundo branco — um mundo de privilégios —, enquanto o corpo da mulher negra permanece animalizado e excluído da noção de humanidade. Diante desse processo de exclusão e negação de afetos, é fundamental que mulheres negras estejam atentas às violências que podem atravessar suas trajetórias. Dados evidenciam profundas desigualdades raciais que, somadas às desigualdades de gênero, colocam mulheres negras em maior situação de vulnerabilidade. Informações do Mapa da Violência e do Atlas da Violência (IPEA/FBSP) apontam que mulheres negras são as principais vítimas de homicídios no Brasil. Em 2024, 63,6% dos feminicídios vitimaram mulheres negras, que apresentam 1,7 vezes mais chances de serem mortas do que mulheres não negras. A população negra no Brasil vive em um constante estado de violência, semelhante a um cenário de guerra. Por isso, é essencial não naturalizar essas violências. Sofrer não é normal. Ser violentada, de nenhuma forma, é aceitável. Existem outras possibilidades e caminhos de cuidado. Entre eles, Pereira destaca experiências relatadas em suas pesquisas, como o acesso à universidade, que possibilitou a muitas mulheres negras processos de empoderamento, novas relações com o próprio corpo e, especialmente, com o cabelo — descritos como um “desabrochar da sexualidade”. Ela também indica dois importantes espaços surgidos em Salvador (BA): o Afrodengo e a Batekoo, compreendidos como zonas de transformação estética, empoderamento e fortalecimento coletivo, onde ocorre o encontro de pessoas negras que propõem novas formas de existir. A jornalista Lorena Ifé é a criadora do Afrodengo, a maior rede virtual de afetividade negra no Facebook, com o objetivo de conectar casais, paqueras e amizades entre pessoas negras. A iniciativa surgiu a partir da baixa diversidade racial observada em aplicativos de relacionamento e se expandiu para além de Salvador, alcançando todo o Brasil e outros países. Atualmente, o grupo conta com mais de 54 mil membros e desenvolve ações, palestras e atividades voltadas à construção e ao fortalecimento do afeto entre pessoas negras. Um verdadeiro quilombo virtual, disseminando amor. A Batekoo, por sua vez, é um movimento criado por Maurício Sacramento. Trata-se de uma festa negra, produzida por e para pessoas negras, que promove o resgate identitário e a construção de novas narrativas a partir de olhares negros. A Batekoo se constitui como um espaço de acolhimento, segurança e afirmação, onde é possível repensar referenciais e existir plenamente nas dimensões racial, de gênero e sexual. Bruna Jaquetto Pereira possui produções fundamentais sobre a temática. Em 2020, lançou o livro _Dengos e Zangas das Mulheres-Moringa: Vivências Afetivo-Sexuais de Mulheres Negras_, pela editora da LASA (Latin American Studies Association), no qual aborda relacionamentos inter-raciais, relações entre pessoas negras, vínculos familiares e experiências subjetivas. ![61lQeTls-nL._SL1360_.jpg](https://cms.kiandadiversidade.com/uploads/61l_Qe_Tls_n_L_SL_1360_643ccdf1de.jpg)
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