Kianda Logo
O suicídio entre a população negra e LGBTQIA+ é uma discussão necessária!

O suicídio entre a população negra e LGBTQIA+ é uma discussão necessária!

Por: Adelmo Filho

24 de janeiro de 2026

Desde o ano de 2003, o dia 10 de setembro é marcado pela Campanha Mundial de Prevenção ao Suicídio. No Brasil, o mês inteiro é dedicado a essas ações desde 2015, tendo a cor amarela como um de seus símbolos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 32 pessoas morrem por suicídio diariamente no país e, no mundo, isso corresponde a uma morte a cada 40 segundos, sem contar as ideações e tentativas. Estando cientes dessa realidade, precisamos identificar os grupos mais afetados por essa condição. Para isso, conversei com o professor, doutor e psicólogo Paulo Vitor Navasconi, também autor do livro Vida, Adoecimento e Suicídio: Racismo na Produção do Conhecimento sobre Jovens Negros LGBTTIs (2019), sobre esses acontecimentos e como eles afetam diretamente as minorias sociais. Ao iniciar as reflexões, ele fala sobre a necessidade de pensar o suicídio não como uma doença, mas como uma consequência social: “o sofrimento é político, é social; precisamos entender o desenvolvimento humano de fora para dentro”. Ou seja, a forma como a sociedade funciona traz consequências diretas ligadas à saúde mental de cada pessoa. Com isso, discutimos o cerne da questão: pensar os fatores de risco e também os marcadores sociais. Nosso corpo carrega diversas marcas que são expressas de fora para dentro; portanto, pensar em sociedade, sofrimento e adoecimento significa reconhecer que, se vivemos uma realidade racista, transfóbica, lesbofóbica, machista, gordofóbica e capacitista (+), isso irá refletir de forma histórica, política, econômica e mental na vida das pessoas. Ao ser discriminado por sua cor, identidade de gênero ou sexualidade, o opressor retira a humanidade do outro. Lembro-me de que, em atendimentos clínicos, ouvi diversas vezes pessoas negras relatarem que se sentiam “um lixo” após passarem por situações de violência racial. “Um lixo” é algo que não possui valor, que é descartável. Navasconi ressalta que um dos grandes problemas ao se pensar o suicídio é a prática universalista, que não leva em conta os marcadores sociais, já que os índices apontam que a população negra, indígena e trans está mais envolvida em fatores de risco ligados ao suicídio. Em 2018, foi lançado pelo Ministério da Saúde, em parceria com a Universidade de Brasília, o relatório Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros (2012–2016), no qual é possível perceber que jovens negros têm entre quatro e seis vezes mais chances de morrer por suicídio quando comparados a jovens brancos. Se já temos esses marcadores sociais como fatores de vulnerabilidade, é preciso considerar também o cenário de instabilidade que o Brasil vivencia devido à COVID-19. Navasconi faz uma reflexão importante sobre isso: “é um momento de emergência e de desastre, um momento de crise que temos vivenciado, mas é uma crise dentro de outra crise; as minorias sociais já viviam a crise racial, de gênero e de sexualidade”. Nesse contexto, ele também se refere à ausência de políticas públicas específicas voltadas para essas minorias, principalmente para a população negra, que, neste período, tem construído redes de cuidado entre si. Paulo Vitor Navasconi afirma que, antes mesmo da COVID-19, já existia um sentimento de solidão e não pertencimento, e que agora tudo isso se soma a diversos conflitos. Diante dessa condição de vulnerabilidade social, torna-se impossível não refletir sobre a morte. ![71iRO292xCL._SL1500_.jpg](https://cms.kiandadiversidade.com/uploads/71i_RO_292x_CL_SL_1500_887055020f.jpg) Em seu livro Vida, Adoecimento e Suicídio: Racismo na Produção do Conhecimento sobre Jovens Negros(as) LGBTTIs, são apresentadas diversas reflexões interseccionais sobre raça, gênero, classe e sexualidade, a partir de diferentes histórias. Navasconi também traz relatos de ordem pessoal, falando sobre suas tentativas de suicídio e sobre a ausência de questionamentos na época, já que não havia uma investigação sobre motivos ou frequência. Ao se debruçar sobre seus estudos, passou a construir uma identidade racial e, ao se reconhecer como negro, compreendeu melhor do que se tratava. São discutidas perspectivas sociais como o racismo epistêmico, a branquitude e a heteronormatividade, entre outros fatores que provocam adoecimento e destruição. É importante lembrar que, na maior parte dos casos, as pessoas pensam em acabar com as situações de dor e sofrimento que vivenciam, e não com a própria vida. Caso precise de ajuda, procure o CVV (www.cvv.org.br). O apoio é oferecido por telefone, e-mail e chat, 24 horas por dia, todos os dias da semana. Lembre-se: você não está só.
half moon

Canais para contato

Não perca nenhuma novidade! Acompanhe nossas últimas notícias e postagens.
Salvador, BA
contato@kiandadiversidade.com